terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Paixão Roma encontra Paixão Assis

post dedicado a Roberto Melo

Com Roberto viajando por Assis, não poderia deixar de comentar a “questão giottesca”, com o “maestro de Jacó” e a posição de Bruno Zanardi, o restaurador dos famosos afrescos de Assis após o terremoto. 

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"Master of the Isaac Stories - Scenes from the Old Testament - Isaac Blessing Jacob -Master of the Isaac Stories - Scenes from the Old Testament - Isaac Rejecting Esau - WGA14571.jpg - imagens de Domínio Público

Essa é uma história difícil de contar, pois há duas introduções, que se juntam numa trama, que acaba com um grande ponto de interrogação. A coisa boa é que este post acaba com mais uma grande lista de igrejas para ver em Roma!

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 Afresco da Sancta Sanctorum

A dúvida sobre quem era e quando nasceu Giotto e a segunda toca o que significava uma “obra” de pintura na Alta Idade Média. Vou começar pela primeira, para esquentar; mas lembre-se, é um início biforcudo, depois vamos ter que pegar a outra ponta para poder começar!

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 Jacopo Torriti, São João em Latrão

Giotto di Bondone nem sabemos exatamente como se chamava: “Giotto” poderia ser um apelido de Angiolo ou Ambrogio; também é incerto o ano em que ele teria nascido. As vozes mais fortes afirmam o ano de 1267 – a outra data, a de 1276, é eventualmente considerada por alguns como escolhida para exagerar e assim, exatar e mistificar, a idade do jovem gênio. 
 
O pintor Giotto deu origem a inúmeros mitos, entre os quais o da sua descoberta por seu maestro, ninguém menos do que Cimabue, quando viu “ovelhas que ele tinha pintado numa pedra” (Vasari!). A outra lenda que se conta de Giotto, é que era capaz de fazer um círculo perfeito sem compasso, o famoso “O” do Giotto.

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Santa Maria Maior, Coroação da Virgem

A obra de uma pintura ou escultura na Alta Idade Média era feita por uma oficina que tinha um chefe, o “protomestre” ou prothomagister, que muito provavelmente dirigia a obra como um maestro de orquestra. Quem materialmente realizava a obra eram os artesãos subordinados à ideação do chefe da obra – e aqui já esbarramos em uma questão delicada: o romanticismo da “mão do artista”. Se o grande maestro não toca pincel... fica difícil neste contexto falar em “pincelada” de artista, não?!

Para ser o chefe da obra, ou prothomagister, o sujeito tinha que ter, com certeza, uma experiência danada para cumprir com os contratos estipulados com quem pagava a obra; e a concorrência era ferrenha.
Por curiosidade, essa “hierarquia na obra”, por assim dizer, vinha láááá de trás, pois existe um decreto emitido por Diocleciano no ano de 301, no qual são mencionadas duas classes de trabalhadores nas obras de pintura, onde um era o ideador e o outro o executor. 

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Espetacular mosaico de Pietro Cavallini, São Paulo Fora dos Muros

Grandes históricos da arte afirmam que tudo o que existe na Basílica Superior de Assis foi pintado por Giotto. Uma corrente, na maior parte estrangeira (Richard Offner diz isso desde 1939!), coloca essa afirmação em dúvida e propõe a tese que um dos pintores de escola romana (Jacopo Torriti, Filippo Rusuti e Pietro Cavallini) os teria realizado – neste caso, mais precisamente, Pietro Cavallini
Essa questão nasce sobretudo com a dúvida sobre a paternidade da representação da “História de Jacó” na Basílica Superior deAssis. Nesta cena, nunca ficou cem por cento acertada a autoria de Giotto, pela extrema maestria na realização dos volumes e representação do espaço arquitetônico, além da utilização de um vermelho muito quente, parecido com a tonalidade utilizada por Cavallini nos afrescos do antigo refeitório de Santa Cecilia emTrastevere.

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Mosaico de Filippo Rusuti, Santa Maria Maior

Após o restauro (1974-1983) realizado por Bruno Zanardi em consequência do terremoto que a Basílica Superior sofreu, Zanardi defende a tese da autoria de Cavallini e sustenta a sua tese com dois argumentos fortes: os afrescos que ele restaurou na Sancta Sanctorum, reconstruída em 1279 após um terremoto, onde embaixo de pinturas do período da contrareforma, foram descobertos afrescos que combinavam os estilos pompeianos e temas cristãos em maneira maravilhosamente “naturalista”. Além disso, um importante achado durante este último restauro, que poderíamos dizer, seria “a cereja sobre o bolo”: Zanardi descobriu um “patrone”, isto é, uma folha de papel cerado sobre a qual tinham pequenos orifícios e que eram utilizadas como máscara para acelerar o processo da realização do desenho, e em seguida do afresco, que, como sabemos, tem que ter um tempo muito veloz de execução. Deste “detalhe” supõe-se uma circulação de máscaras para realização de afrescos entre os artesãos, que causaria a confusão na identificação de cada mão. Nicolau III, o papa que comissionou os afrescos da Sancta Sanctorum, era um protetor da Ordem dos Franciscanos e poderia muito bem ter levado Cavallini para Assis.

Neste momento, ainda não temos uma resposta definiva e a dúvida sobre a paternidade de várias representações da Basílica Superior de Assis permanece.

(Aí vem a lista!)
O bom é poder olhar os três maiores pintores (e mosaicistas) romanos do século XIII, Pietro Cavallini (Santa Cecilia, São Paulo Fora dos Muros, Santa Maria em Trastevere, São Crisógono, São Francisco em Ripa), Filippo Rusuti (Santa Maria Maior, Basílica Superior de Assis) e Jacopo Torriti (São João em Latrão, Santa Maria Maior, Basílica Superior de Assis) sob novos olhos, e não mais como seguidores ou “alunos” (Vasari, em relação a Cavallini) de Giotto!

Encerro assim o sexto ano deste meu blog sobre Roma, mostrando como Roma é o ponto de partida de um império e de um mundo inteiro e como tudo o que nasceu aqui é complexo e deve ser olhado com carinho e sobretudo com muita calma - como fazem alguns meus clientes caríssimos ;)

Feliz Ano Novo, Leitor!

Leia sobre como funciona uma Viagem à Assis: https://guiaderoma.blogspot.de/2014/12/uma-paixao-chamada-assis.html

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