sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A Galeria dos Mapas dos Museus Vaticanos

A Galeria dos Mapas ou Cartas Geográficas dos Museus Vaticanos


A Galeria dos Mapas ou Cartas Geográficas dos Museus Vaticanos é um dos lugares mais fascinantes para o visitante, seja do ponto de vista da qualidade dos afrescos e decorações em gesso, que do ponto de vista do conhecimento exato do território no século XVI, do que hoje chamamos Itália.

A Galeria dos Mapas dos Museus Vaticanos

Seu comprimento é pouco mais de 100m e sua largura, 6m, ambiente que nos envolve completamente em suas tonalidades de azuis e verdes, sua decoração em gesso do teto. O que parece ser um conjunto de afrescos inocentes tem, como sempre aqui na Itália, um plano preciso de uma declaração de unidade do futuro território italiano no século XVI – e quem nos diz isso é Antonio Paolucci, um dos historiadores da arte mais apaixonados pela Galeria dos Mapas, que é ex-diretor dos Museus Vaticanos.
 A Galeria dos Mapas dos Museus Vaticanos

Quem está por trás desta grande obra é o papa bolonhês, professor de Direito na Universidade, o humanista erudito Gregório XIII foi cardeal potente durante o Conselho de Trento e força motriz da contra-reforma, mas tão potente que foi eleito papa em apenas um dia de conclave!

São Francisco recebe as estigmas no Monte Averna
Uma vez eleito papa, reformou o calendário “giuliano” que tinha causado uma discrepância de 11 dias no tempo real e decretou que após o dia 04 de Outubro de 1582 seria dia 15 de Outubro e colocou astrônomos para trabalhar na Torre dos Ventos em prol de um novo e preciso calendário.

Encontro do Apóstolo Pedro com Cristo na Via Appia, Quo Vadis
 
Como todas as mentes muito à frente do seu próprio tempo, suas ideias demoraram para serem aceitas e só no século XVIII a Europa inteira adotou o “calendário gregoriano”; no século XX foi a vez da Rússia aceitá-lo e utilizá-lo após a Revolução de Outubro. Aprendemos aqui que quem mandou realizar a Galeria dos Mapas era um homem apaixonado pela Arte, pela Religião, pela Ciência... e pela Itália.


O resultado da intenção do papa Gregório XIII em representar a costa do Tirreno e do Adriático foi resumido em 40 afrescos ao longo dos 120m de comprimento, com as grandes ilhas da Sardenha e Sicília, as menores Tremiti, Elba, Malta e Corfú, todas em perspectiva de vôo de pássaro e em escalas diferentes uma das outras. O gênio matemático e cosmógrafo que foi o diretor da obra chamava-se Egnácio Danti, também professor da Universidade de Bolonha.

Lago de Trasimeno, derrota do exército romano contra Hanibal

Curioso o fato que ao entrar nesta galeria você vai ter vontade de caminhar de costas, isto por que as representações do teto estão viradas para o que hoje é a saída da galeria, mas que era a entrada. Dada à quantidade de visitantes nos horários normais (das 09 às 15h), a melhor coisa é caminhar devagar, parar e virar 180° para admirar o teto com seus milagres e fatos da história da igreja de cada região representada.


O grande charme dos Museus Vaticanos é que seus ambientes não nasceram como museus, mas como palácios apostólicos. Para desvendar seus porquês, seus detalhes e segredos, reserve seu passeio aos Museus Vaticanos com uma guia profissional em português. Escreva-nos um email para solicitar um orçamento através do site Guia Brasileira em Roma.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Dez Curiosidades sobre o teto da Capela Sistina

Dez Curiosidades sobre o teto da Capela Sistina


Existem infinitas coisas que poderiam ser ditas sobre a Capela Sistina, um dos afrescos mais conhecidos e visitados no mundo inteiro. Aqui vão 10 curiosidades sobre a Capela Sistina para que você entenda o quanto é importante termos consciência de algumas informações a mais do que a sua maravilhosa beleza universal para aproveitar melhor a experiência fantástica que é visitá-la.

Interior da Capela Sistina

Minha última paixão é um livro de um estudioso alemão que aprofunda o pensamento teológico dos conselheiros dos papas Sisto IV (que mandou afrescar as paredes) e Júlio II (que mandou afrescar o teto), personagens da história importantíssimos por que contribuiram ao desenvolvimento do programa iconográfico deste lugar tão sagrado, pois a Capela Sistina é a capela particular do papa.

Exterior da Capela Sistina

1. As medidas da Capela Sistina são as mesmas do templo de Salomão em Jerusalém, destruído pelos romanos durante a repressão da revolta do ano de 66: 40,93 de comprimento, 13,41m de largura e quase 21m de altura. Em 1508, Michelangelo disse que a forma do edifício parecia um “paiol”.

Autorretrato Michelangelo pintando a Sistina

2. A Capela Sistina foi realizada pelo papa Sisto IV no ano de 1475. Neste ano nasceu Michelangelo Buonarrotti, que estudou o “ofício de artista” no estúdio (bottega) de um artista chamado Domenico Ghirlandaio, que por sua vez estava na equipe de pintores renascentistas exímios das paredes da Capela Sistina.

Ghirlandaio, "Entrega das chaves", afesco Capela Sistina

3. Antes de Michelangelo afrescar o teto, existia um céu azul com estrelas douradas, obra de um artista chamado Pier Matteo D'Amelia.

4. Em um primeiro momento, Michelangelo recusou-se a pintar a Capela Sistina, pois definia a si mesmo como escultor e não como pintor.

5. O papa pediu a Michelângelo para pintar os 12 apóstolos; o grande gênio solicitou ao papa que “enriquecesse” o conteúdo do projeto com episódios do Antigo Testamento, mais precisamente, da Gênesis.

A sequência da Genesis, no teto da Capela Sistina

6. Michelangelo pintou o teto em cima de um andaime muito alto e progetado por ele mesmo... e realizou a grande obra de pé e não deitado, como podemos observar em um desenho seu!

7. Os 500m2 de superfície foram pintados em 4 anos (1508-1512). Nos anos '80, iniciou o famoso restauro do teto da Capela, trabalho que durou quase 14 anos e foi financiado pela Televisão Japonesa - arigatô! A foligem que tinha mascarado por anos a palheita de cores utilizada por Michelangelo e as camadas de gordura dos materiais utilizados em restauros anteriores tinha levado os históricos da arte à conclusões errôneas a respeito desta obra-prima.

Interior da Capela Sistina antes dos afrescos do Michelangelo
8. O preço pago por essa obra-prima ao artista foi de 1200 escudos por ano (é muito difícil fazer conversões de dinheiro antigo-medieval-renascentista; aqui vou arriscar dizer que era qualquer coisa como €200.000 - mas aqui afirmo e aqui nego a minha afirmação, como se diz em italiano quando não se deseja fazer uma afirmação!) , que vinham de taxas cobradas pela passagem de pessoas e mercadorias no rio Pó, na cidade de Piacenza; a outra fonte destinada a pagar esta obra eram taxas pagas à Dattaria apostólica, uma epecie agência de impostos da época.

Torso del Belvedere, Museus Vaticanos

9. Muitas obras da antiguidade começaram a ser descobertas durante o período em que Michelangelo pintava a Capela Sistina. E muitas delas influenciaram profundamente o trabalho que estava sendo realizado. Uma das mais importante é o Torso del Belvedere.

10. A Capela Sistina é visitada por uma média de 23.000 pessoas diariamente.

É proibido fotografar (e falar!) na Capela Sistina. Todas as fotos que ilustram este post são da WIKIPEDIA https://it.wikipedia.org.

Para uma visita guiada com uma profissional que fale português e possa fazer com que a sua estadia nos Museus Vaticanos seja proveitosa, por favor entre em contato: www.guiabrasileiraemroma.com.br/contato 

sábado, 19 de agosto de 2017

Subterrâneos da Praça Navona

Os subterrâneos da Praça Navona

Os maravilhosos arquitetos que trabalharam em Roma e a transformaram em um centro-histórico que atrai pessoas do mundo inteiro para apreciar a sua beleza, às vezes tiveram uma ajudinha do passado, como é o caso da Praça Navona, construída sobre os restos do Estádio de Domiciano, que hoje são visitáveis.   A palavra "estádio" vem do grego, stadion, e era uma unidade de medida que correspondeva a 180m, utilizada na mais importante das competições esportivas do mundo helênico.

Vista da rua, Subterrâneos Praça Navona, Estadio de Domiciano

História e arquitetura do Estádio de Domiciano

No I séc. d.C. este espaço ficava no chamado "Campo Marzio", ao norte dos Fóruns. O imperador Domiciano construiu o seu estádio para hospedar competições esportivas em homenagem ao deus Júpiter Capitolino. Na lista de competições "em estilo  grego", eram também previstas música e poesia, e para tanto foi construído o Odeon.

Maquete do Estádio de Domiciano

O "Estádio de Domiciano" media 275 x 106m e a sua forma consistia num longo retânglo com um dos lados curtos que acabava num meio-círculo, com todo o perímetro sobre duas ordens de arcadas.  A entrada dos espectadores era através dos lados longos e do semi-círculo.  A capacidade total acredita-se ter sido de 30.000 espectadores.

Exposição nos subterrâneos da Praça Navona, Estádio de Domiciano

Com a queda do império, seus mármores foram utilizados em outros monumentos e os espaços foram utilizados como armazéns ou estábulos. Na Idade média moradias foram construídas sobre as ruínas e no final do século XV o papa deslocou o mercado do Capitólio para cá.


Mostra Estadio Domiciano, Torso - guia brasileira em Roma

É comum ver hoje ruínas de templos, termas e circos em vários lugares do império e das suas colônias, mas as ruínas em mármore e tijolos de um estádio fora do mundo grego, só mesmo aqui, embaixo da Praça Navona.

Exposição subeterrâneos Praça Navona

As escavações no século XX

Nos anos '30 do século XX foram realizadas várias descobertas importantes em Roma sobre o passado imperial glorioso, e essa foi uma delas.
Roma é fundamental para entender o que foi o final do Império Romano, e aqui vemos na prática, no mármore e no tijolo, um pouco do que este fato grandioso da nossa história significou.

Estes subterrâneos ficaram por muitos anos abandonados até que realizaram uma licitação para orgranizar as ruínas em uma pequena área arqueológica visitável e, faz tão pouco tempo, acho que não são mais de dois anos que está aberta ao público nesta forma.

Nos arredores da Praça Navona existem museus que valem muito à pena ser visitados, como o  Palácio Altemps ou o Museu Barraco. A escolha de restaurantes é vasta, assim como a de sorvetes; famoso e ainda bom é o "Tre Scalini", diretamente na Praça Navona.

Piazza Navona SUbterrâneos
Via di Tor Sanguigna,1
Abertura: todos os dias das 10 às 19h
Entrada: € 8; meia € 6 (inclui audioguia em ingles ou italiano)

Tre Scalini, sorvete no centro histórico de Roma
Piazza Navona, 30-35

domingo, 13 de agosto de 2017

Fórum de Trajano

O Fórum de Traiano

O Fórum de Traiano é o mais majestoso dos fóruns, construído entre os anos de 107 e 113, após a conquista da Dácia, que hoje chamamos Romênia. Conhecemos o nome de seu arquiteto, Apolodoro, um grego genial de Damasco, que projetou várias obras para Traiano. A visita a estes fóruns dá-se separadamente dos Fóruns Imperiais e da zona arqueológica visitada normalmente no tour Roma Antiga.

Foro De Trajano visto do Altar da Pátria

História e aquitetura do Fórum de Traiano

Decébalo,  rei dos dácios, tinha invadido territórios germânicos do Império, Traiano viu-se obrigado a defendê-los. Rapidamente Traiano contornou a situação e manteve Decébalo no trono, como vassalo.
Dois anos depois, Decébalo revoltou-se mais uma vez contra o Império, mas desta vez Traiano não o perdoou.


As jazidas de ouro da Transilvânia trouxeram um patrimônio inestimável ao império e os jogos celebrados por Traiano para comemorar a vitória contaram com quatro meses de circo sem pausa e a presença de 10.000 gladiadores. Traiano iniciou uma bateria de obras públicas que fizeram a fama do seu reinado até os nossos dias.


A obra "faraônica" de Traiano para comemorar a vitória sobre a Dácia era composta por um Fórum, uma basílica e o grande hemiciclo denominado "Mercado Traiano', num total de 275.000 m².

Para a construção deste fórum o terreno teve que ser nivelado, desmontando parte da colina Quirinal.

A extensão do fórum era uma área de 300 x 185m, circundada por duas bibliotecas (uma em grego e uma em latim) e uma basílica. A "basílica Ulpia" (assim conhecida pelo nome do imperador ser Marco Ulpio Traiano) era a maior construída até então: 170m de comprimento por 60m de largura e 40m de altura, divididos em cinco naves.

Passeando na via Biberatica noite
O material principal de construção utilizado foi o tijolo. Tudo era revestido por mármores.
O pavimento era em mármore com decoração geométrica, e das colunas que chegaram até nós, temos o mármore cipollino e granito cinza. Não faltava uma estátua equestre de Traiano no centro do fórum. Grande parte da decoração era feita em bronze com acabamento dourado.

No interior da basílica aconteciam julgamentos, atividades comerciais e a cerimônia da libertação dos escravos ("Atrium Libertatis").

Fórum de Trajano na Primavera

Também não faltou a urna de ouro com os restos mortais do grande imperador na base da Coluna Trajana - corrompida no seu significado original com a estátua de São Pedro no alto (que inspirou monumentos como a Colonna Vendôme de Paris ou as colunas da Karlskirche de Viena), colocada por ordem do Papa Sisto V.


Durante a Idade Média os espaços do Fórum de Trajano foram transformados e utilizados como residências, igrejas e monastérios. No século XVI foi criado um bairro chamado "Quartiere Alessandrino", para nós um lugar muito importante, pois foi aqui que Michelangelo viveu e trabalhou em Roma!

Reconstrução do interior da basílica do Forum de Traiano

Mercado de Traiano

O Mercado de Traiano se desenvolvia em diversos andares sobre terraços cavados na colina do Quirinal.

Mercado Traiano, vista do grande Hemiciclo

Era composto por duas estruturas semi-circulares e um enorme salão, chamado "Aula". Este espaço era dividido em uma enorme quantidade de espaços menores ligados por corredores em uma espécie de labirinto que supostamente serviam para o comércio de mercadorias. O material de construção principal utilizado foi o tijolo.

Salão central dos Mercados Traianos

O piso destes ambientes era coberto por um mosaico preto de pedras muito rígidas para garantir a impermeabilidade.

Entre o grande hemiciclo e o resto das estruturas terraçadas corre uma rua que se chama Via Biberatica, onde podemos caminhar hoje!

Aqui acontecem exposições temporâneas de arte antiga mas também de arte contemporânea. Os ambientes têm a capacidade de valorizar tudo o que aqui é exibido.



O "Mercado de Traiano"  hoje é uma área arqueológica à parte, com bilhete separado do Fórum Romano.
Área arqueológica do Mercado de Traiano
Via Quattro Novembre, 94
Todos os dias: 9.30-19.30 
24 e 31 de dezembro: 9.30-14.00
Intero € 13 Meia € 11  

Bibliografia
"Guida archeologica di Roma", Prof. F. Coarelli

sábado, 5 de agosto de 2017

Trier, Alemanha

Marcos importantes da História de Trier

Trier é a cidade romana mais antiga da Alemanha. O território era originalmente ocupado por celtas, mais precisamente por uma mistura de tribús celtas e germânicas, e foi conquistado pelo "mulherengo, mas ótimo general" - segundo um jornalista muito bem-humorado que escreveu a sua versão sobre a História de Roma - do Júlio César durante as Guerras Gálicas entre os anos de 58-50 a.C. . Uma cidade romana, propriamente dita, seria fundada mais tarde por Augusto, em 16.a.C..
Trier tem uma comunidade cristã desde o final do II século e é sede episcopal desde o IV século.  Aqui nasceu Santo Ambrósio, bispo de Milão no IV século.

A cidade tem hoje quase 120.000 habitantes e representa uma longa continuidade habitativa com várias áreas arqueológicas que podem ser visitadas, testemunhas desde o período romano, passando pela Idade Média e Renascimento local. Karl Marx nasceu em Trier. Além de tudo isso, Trier é uma cidadezinha simpaticíssima!

Desde 1986 vários monumentos entraram para a lista UNESCO: Porta Nigra, o Anfiteatro, as Kaiserthermen, as Barbarathermen, a Ponte Romana, a Basílica de Constantino, a Catedral e a coluna que fica fora da cidade, Igeler Säule (um monumento funerário do III séc. d.C. que não consegui visitar desta vez).

O que ver em Trier

Trier é uma mini-Roma, por isso as suas atrações turísticas se dividem em áreas arqueológicas e igrejas e podem servir como indicação para as explorações: um dia de arqueologia, um dia de igrejas e Museu.

Porta Nigra em Trier


Existem duas termas antigas , um portão de muro do II séc. d.C., uma basílica do IV século (razão pela qual decidi fazer esta viagem) e um pequeno anfiteatro. O Landesmuseum Trier tem salas dedicadas à geologia do território, objetos dos Celtas, decorações prestigiosas romanas, objetos e sarcófagos romanos enormes - como nunca tinha visto. Uma catedral  do IV século construída sobre ruínas de uma domus romana, uma igreja medieval de São Maxim e uma igreja barroca (São Paulino).

Arqueologia em Trier

Comecei meu primeiro dia nas margens do simpaticíssimo Mosel, pois decidi ficar perto do rio e a 8 minutos de caminhada da Porta Nigra.

Porta Nigra



No dia da chegada, fui dar uma olhada no geral das distâncias e vi em primeiro lugar a Porta Nigra. Construída aproximadamente em 180 d.C. e já chamada "Porta Nigra" na Idade Média, é o portão romano antigo em melhor estado de conservação ao norte dos Alpes, isto é, fora da Itália. Interessante o que a guia nos contou sobre as pedras cinzas arenosas que o compõem: vêm de uma zona a 15km de Trier, pois o material que poderia ter sido utilizado encontrado aqui não era resistente o suficiente (uma pedra vermelha).

Os blocos foram cortados por um sistema de serras em bronze movidas por um moinho a água e montados sem cimento; os blocos eram fixados por pinos de ferro, como no Coliseu, e também tiveram o mesmo destino: durante a Idade Média os pinos tinham um grande valor por serem de ferro e foram removidos, não sem algum dano à estrutura!

As torres arredondadas permitiam aos arqueiros uma melhor zona de ação em caso de ataque. Em 1028 o monge grego Simeon ocupou uma parte do portão, onde viveu como Eremita e morreu em 1035. Ele foi enterrado aqui e santificado no mesmo ano. Quinhentos anos depois, o cardeal Popo von Babenberg (últimos anos do séc. XV) mandou construir duas igrejas em sua homenagem, que foram desmontadas por ordem de Napoleão no século XIX (1804-1809). 

Ponte Romana e Barbara Thermen

Meu segundo objetivo foi a Ponte Romana, construída entre os anos 17-16 a.C.. e tem 370m de extensão. A guia nos disse que a ponte é hoje vista do ponto de vista funcional, como simples obra de engenharia pela população! No Landesmuseum os seus pilares são apresentados como a "Certidão de Nascimento de Trier", pois calcularam a data da madeira utilizada.

Pilares da Ponte Romana de Trier no Landesmuseum

A primeira restauração é de 71 d.C., após um período de guerra. A  ponte foi sucessivamente remodelada na sua base no II século e no IV século. Por mil anos a ponte foi a unica ligação entre as cidades de Koblenz e Metz. No séc. XVII a ponte foi explodida pelas tropas francesas e só foi reconstruída no século XVIII. Na II Guerra Mundial a ponte sobreviveu aos bombardamentos e por ali passaram os americanos em 1945. Somente nos anos '60 do século XX os pilares romanos de madeira foram subsituidos por concreto.


Ponte Romana de Trier

Prossegui para as termas "Barbara Thermen", construídas no II séc.d.C. e segundo maior edifício termal de todo o império romano, com uma utilização de 1230m³ de água por dia - infelizmente sobrou muito pouco em muros e pisos!

Passeio ao longo do Mosel, Ponte Romana

Este nome tão "cristão" se deve a um mosteiro para freiras domenicanas que foi construído sobre estas ruínas no XIII século, que depois de várias vicissitudes de guerra, foi definitivamente destruído em 1674. Existe uma passarela gratuita sobre as Termas, com vários painéis explicativos e uma maquete em bronze da cidade.

Termas de Barbara, ou Barbarathermen

Modelo em broze da cidade antiga e seus monumentos


Seguindo sempre reto na Kaiserstraße, não podia não ir direto para o Anfiteatro, pois olhando o mapa, resolvi contornar os monumentos mais periféricos para depois aproximar-me do centro. 

Kaiserthermen

Construídas no IV século, foram as últimas termas a serem construídas das três que aqui existiam - isto é, eram as mais "modernas" do ponto de vista tecnológico. O complexo de edifícios tinha dimensões de aproximadamente 250 x 145m e era localizado ao sul do palácio imperial. Este complexo termal nos lembra as Termas de Caracalla, pois possuía uma zona para ginástica (a Palestra) e uma zona com as piscinas de água fria, morna e quente, além de um labirinto de ambientes subterrâneos de serviço, que aqui é visitável.
Kaiserthermen, portão medieval de Trier

As termas não foram finalizadas por Constantino e já na segunda metado do IV século o complexo foi transformado em edifício com função representativa pelo imperador Valentiniano I. Durante a Idade Média, este edifício também serviu como "pedreira" para a construção de novos edifícios e a parte destinada a ser o calidarium, que tem 19m de pé direito, foi integrada nos muros de proteção da cidade.

Anfiteatro

Acredita-se que o anfiteatro tenha sido construido entre 160-200 d.C., junto com os muros da cidade. O anfiteatro tinha capacidade para aproximadamente 20.000 espectadores. Ele fica "longe" do centro, numa espécie de platô. E que pena que não sobrou nada, mas nada mesmo, do revestimento de mármore!

Anfiteatro e arena

Supõe-se que anfiteatro deve ter servido para espetáculos de lutas de gladiadores, lutas de animais, caça e festas religiosas - até aqui, como o Coliseu. Não aguento estes alemães do Vale do Mosel que onde vêem uma colininha já chegam com o pé de uva. É  videira para tudo quanto é lado! Como decoração da cidade, plantação, o mais importante é que tenha uva e vinho - adoro!


 Os subterrâneos, ao contrário do Coliseu em Roma, ficam sempre abertos ao público mas estão (estranhamente) em péssimo estado de conservação.

Maquete de Trieri - Visite o Landesmuseu para ver coisas maravilhosas  da cidade

Aqui temos percurso semelhante ao do Coliseu nos últimos dois mil anos: com a queda do Império Romano seu material serviu para a construção de outros edifícios e as escavações sistemáticas só iniciaram em 1816 - as últimas escavações aconteceram entre 1996-1999.

Anfiteatro de Trier: Subterrâneos e escadarias da arquibancada

Basílica de Constantino (ou "salão do Palácio Imperial")

Trier foi feita capital do Império do Ocidente por Diocleciano em 285, que estabeleceu a tetrarquia, dividindo o Império entre dois Augustos e dois Césares. Entre 293 e 305 aqui morou Constâncio Cloro ( pai do imperador Constantino) como César. Constantino morou em Trier entre 306 e 316. Trier foi por quase 100 anos a capital do Império do Ocidente.

Maquete da Basílica de Constantino no Landesmuseum de Trier

Finalmente, a grande estrela da minha curiosidade em Trier: a Basílica de Constantino. É dos assuntos mais interessantes para mim a ascensão do Cristianismo e as mudanças na arquitetura deste período.

Basilica de Constantino, Trier


Em Roma temos muitas igrejas do IV século que chegaram íntegras até nós, mas não temos palácios imperiais com quatro paredes, chão e teto - restos no Palatino e Fórum, sim. A Basílica de Constantino foi destruída em parte durante a II Guerra Mundial, mas foi reconstruída.

O edifício foi concebido junto com um complexo muito grande de edifícios imperiais para que o imperador exercesse seu poder. A sua construção é datada em torno ao ano de 310 (carimbos nos tijolos). As suas dimensões são de 67m de comprimento, 27,5 de largura e 30m de altura. As janelas dos lados longos têm dimensões de 7,58m (superiores) e 7,23m; a abside 6,80m (superiores) e 6,60m (inferiores).
 

Basílica de Constantino, Trier

Engenheiros, arquitetos e curiosos (como eu!) sempre se interessam pelas fundações dos edifícios antigos: sobre "o que" pousa esta construção tão maciça? As potentes paredes estão apoiadas em fundações que têm 4m de largura e entre 4 e 6 metros de profundidade. Relembro que a famosa receita do cimento romano ainda não foi completamente identificada; sabe-se quais eram os ingredientes, mas não as proporções. Sabe-se que o cimento romano ficava mais rígido com o passar do tempo e que se formavam cristais no interior da estrutura que impediam rachaduras. O Príncipe-eleitor Lothar von Metternich (1551-1623) quis integrar a basílica em uma estrutura de quatro corredores ao redor do seu palácio, ao lado da basílica; mas como o cimento era duro demais para demolir as estruturas antigas adjacentes, ele nunca viu a obra pronta - ficou pro seu sucessor, mesmo!

Quando Trier foi anexada ao Reino da Prússia, a basílica foi restaurada ao seou estado original e transformada em igreja protestante,  inaugurada em 1856.

A basílica e o Palácio do Príncipe-Eleitor de Trier


Aqui vemos vários detalhes típicos do requinte romano, realizados pelo grande arquiteto que infelizmente não conhecemos o nome: as janelas menores na abside acentuam a percepção da profundidade do ambiente, fazendo com que o potente edifício pareça ainda maior do que já é.
A basílica tinha um sistema de aquecimento das paredes (que conhecemos bem de Óstia Antiga) e do chão (hipocausto), naturalmente reguláveis.

Os tijolos que vemos hoje na superfície ficavam escondidos atrás de uma camada de reboque - por isso temos que imaginar esta construção com uma cor clara, um branco-acinzentado.

 
Interior Basilica Constantino, Trier

Queria muito entrar num edifício destas dimensões onde provavelmente sentou-se o imperador para dar audiência aos súditos; tentar imaginar o ambiente com o seu revestimento marmóreo; observar como a luz é filtrada, já que é particularmente luminosa esta construção, com duas enormes fileiras de janelas no lado longo e outras duas na abside, como as suas palavras deveriam ter ecoado no ambiente revestido de mármore...

Revestimento marmóreo do piso da basílica de Constantino de Trier

 É a partir destas basílicas (cuja definição é simplesmente "edifício de planta retangular" ou, da origem grega "casa" - ou corredor - do rei) que vão ser pensados os primeiros edifícios de culto da nova religião do IV século, a religião Cristã.

Basílica de Constantino, Trier,

Nos edifícios tardo-antigos e nos primeiros edifícios de culto cristão, não mais massas articuladas com colunas definirão o espaço, onde os póprios elementos arquitetônicos são os protagonistas da construção, mas um conceito completamente novo será aplicado nos novos edifícios: a justaposição de superfícies luminosas, fazendo com que a luz seja experienciada em um modo  completamente diferente do que acontecia até então, como salienta o Prof. Argan.
E é isso que vim fazer aqui: experimentar a luz da basílica de Trier!

É especialmente interessante visitar este monumento depois de ter visto pelo menos: Santa Maria Maior em Roma, Santa Sabina, São Paulo Fora dos Muros, Termas de Caracalla, Pantheon, São João em Latrão, o Salão dos Filósofos da Villa Adriana em Tivoli, a Villa dei Quintilli, em Roma e Óstia Antiga.

Os  únicos horários difíceis dos monumentos em Trier são os da Basílica, por isso aqui vão eles:
Novembro, Janeiro - Março:
3as - Sábado 10 - 12 e 14 - 16h
Domingos / 6as das 13 - 15h
Segundas-feiras fechada

Dezembro:
2a - Sábado 10 - 12 e 14 - 16h
Domingos e Feriados das 13 - 15h

Abril - Outubro:
2a a Sábado das 10 - 18h
Domingos e Feriados das  13 - 18h

Um segundo post falará das igrejas de Trier, e um terceiro do Festival Medieval que acontece no verão.

Fiquei hospedada na casa da Andrea, do http://thebackyard.de/ - welcome@thebackyard.de que aconselho muito por que é um lugar maravilhoso, perto da Porta Nigra e das margens do rio Mosel.... além de tudo Andrea é uma excelente anfitriã, passei três dias inesquecíveis em Trier e o apartamento dela contribuiu muito para as doces memórias que levo comigo!

Fale com a Andrea, do http://thebackyard.de/ - welcome@thebackyard.de

Apartamento para alugar em Trier http://thebackyard.de/ - welcome@thebackyard.de

Como colocar Trier na sua viagem

- Se já tiver planejado ver Colônia, você estará a ~180km de Trier.
- Se for à Bélgica e Luxembrugo, Trier fica a 15km de Luxembrugo.
- Se tiver vontade de fazer uma das estradas do vinho, em modalidade "férias relax", o vale do Mosel é maravilhoso; você pode iniciar a viagem em Koblenz e acabar em Trier (foi o que eu fiz, mas com o objetivo de visitar Trier!)

Bibliografia:

Visita guiada com guia da cidade de Trier http://www.trier-info.de

Sites com informações úteis em alemão:
Porta Nigra
http://www.trier-info.de/portanigra-info
Ponte Romana sobre o Mosel
http://www.volksfreund.de/nachrichten/region/trier/Trierer-Weltkulturerbe-Die-Roemerbruecke;art257994,2898952
O mosteiro de Santa Barbara
http://www.roscheiderhof.de/kulturdb/client/einObjekt.php?id=23330
As Kaiserthermen
http://www.traumsteige.com/kaiserthermen-im-labyrinth-der-roemischen-baederanlage/
Basílica de Constantino
http://www.treveris.com/konstantinbasilika.htm 
Landesmuseum Trier
http://www.landesmuseum-trier.de/

Material turístico informativo Rheinland Pfalz
Storia dell'Arte Italiana, G.C. Argan © 1977-1988, Sansoni
Wand, Fenster und Licht in der Trierer Palastaula und in der spätantiken Bauten, Roland Günter © 1968, Verlag Wilhelm Beyer, Herford