domingo, 20 de outubro de 2013

Igreja Santa Maria della Vittoria

 "(...) Um dia me apareceu em sonho um anjo maravilhoso. Vi na sua mão uma lança longa e na ponta parecia ter uma bola de fogo. A lança entrou várias vezes no meu coração, entrou dentro de mim. A dor era tão real, que gemi em voz alta, mas ao mesmo tempo era tão doce que não desejava ser libertada. Nenhuma alegria terrena poderia dar-me tanto prazer. Quando o anjo tirou a lança, ficou em mim uma forte impressão do amor de Deus(...)."
Santa Teresa d'Avila, Autobiografia, XXIX, 13 (1565) 

A igreja Santa Maria della Vittoria é o mais claro exemplo do período Barroco em Roma.
Foi construída entre 1608 e 1622, pelos carmelitanos descalços e originalmente dedicada a São Pedro. O Papa Inocêncio X (1644-1655) dedicou a igreja à Virgem Rainha da Vitória.

A arquitetura da igreja é de Carlo Maderno; a fachada é de Giovanni Battista Soria, sobre duas ordens e com tímpano  triangular sobre o portão de entrada. O interior tem uma navada e quatro capela de cada lado. O teto tem afrescos de Cerrini, "Triunfo da Virgem sobre as heresias" e a "Caída dos anjos rebeldes" (Giuseppe e Andrea Orazzi, séc. XVIII), que é uma metáfora da batalha entre catolicismo e protestantismo, com a vitória dos católicos.
Para quem gosta de Domenichino(1630), têm três telas de sua autoria nas capelas, além de um Guercino e um Guido Reni (sobre o qual ainda restam dúvidas sobre a autoria).

A atração principal da igreja é o "Êxtase de Santa Teresa", trabalho de um Bernini maduro (1647-1652) e que segue a trend do momento, representando o êxtase da santa, como descrito na sua autobiografia, um best-seller do período (citação acima), e olhem o resultado:


Não é maravilhosa essa escultura?

Além da figura da santa com o anjo, o grande Bernini representou personagens da família Cornaro (que comissionou o trabalho) assistindo a cena de dois camarotes.
Repare no manto da santa, que pela primeira vez foi esculpido todo desaprumado: era a primeira vez em que se via este tipo de representação e foi repetidamente copiado por artistas posteriores ao Bernini. Poder-se-ia interpretar o manto agitado como representação do período em que navegava o cristianismo. Observe a luz que ilumina a cena, filtrada pelo vitrô e o exagero dos raios de sol em bronze dourado.

Não perca também:
Planta baixa da igreja Santa Maria della Vittoria

Altar Santa Maria della Vittoria: "Ingresso da imagem milagrosa de Praga" - imagem de Maria trazida pelo príncipe Maximiliano da Baviera, sacerdote e general do exército.

Santa Maria della Vittoria, afresco do teto

Capelas (notem o altar de cada capela, especialmente trabalhados com pedras que formam motivos floreais!):
1a direita: Dedicada à Santa Teresa  Martan, doutora da Igreja, beatificada em 1926 (era antes dedicada à Maria Madalena).

2a direita: Dedicada a\São Francisco de Assis: S. Francisco em êxtase, pintado por Domenico Zampiero (Domenichino), séc XVII.

3a direita: Dedicada à Madona do Carmine. Grupo marmóreo do séc. XIX - XX, de Balzico (1825-1901)

4a direita: Dedicada a San Giuseppe, representado no altar "O sonho de São Giuseppe"., de Domenico Guidi (1623-1701)

Altar:
Reconstruído em 1880 depois de um incêndio por ordem de Alessandro Torlonia (rico banqueiro e mecenas das artes). O desenho é de Carnevali. No centro, a imagem da "Santa Maria della Vittoria" é uma copia da verdadeira trazida de Praga, conservada pelo Vaticano.
Tabernáculo em mármore e pedras preciosas. O tabernáculo é um pequeno armário situado sobre o altar no qual se conservam as óstias consagradas.

Capelas do lado esquerdo:
4a: Capela Cornaro, ou da "Transverberação de Santa Teresa" de Bernini.
O diretor dos Museus Vaticanos, Francesco Paolucci, afirma que "o êxtase é a maior obra-prima do período barroco (...)" e que "(...) a religiosidade barroca é misticismo e sensualidade, prazer dos sentidos e transfiguração da alma (...)."

3a: Capela da Santíssima Trindade: pintura sobre o altar de Giovanni Francesco Barnieri (Guercino). Nesta capela se concentram a maior diversidade de pedras preciosas na decoração. Na parede em alto à direita, uma cena do "Nascimento de Jesus", supostamente de Guido Reni.

2a: Capela de São João da Cruz (1542-1591), sacerdote e poeta espanhol, fundador da ordem dos carmelitanos descalços. Sobre o altar (esquerda): "Jesus aparece ao Santo", de Nicolas Lorrain; direita: Virgem o salva do poço onde tinha caído. Atenção às duas colunas de diaspro da Sicília (o diaspro é uma pedra semi-preciosa, composta por quartzo (SiO2)).

1a: Capela de Santo Andrea (apóstolo) - sobre o altar, de autor anônimo, "Santo Andrea". À direita e esquerda, retratos da família Maraldi, por Giuseppe Cesare (1568-1640).

Esta igreja ficou mundialmente conhecida através do filme "Anjos e Demônios", do romance de Dan Brown (2000).