terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A antiga Basílica de São Pedro (chamada Basílica Constantiniana)

"Quo Vadis?"
dedicato à Tati e à Ana

Sao Pedro por (provavelmente) Arnolfo de Cambio, escultor e arquiteto do séec XIII
S. Pedro, escultura em bronze de Arnolfo de Cambio

Então, você chega em Roma e uma das coisas que está morrendo de vontade de ver é a linda e famosa Basílica de São Pedro com a cúpola do Michelangelo, os 22.000 metros quadrados cheios de criações dos melhores artesãos e artistas do Renascimento italiano nos mais diversos tipos de mármores e bronzes. Antes de escrever sobre a basílica que vemos hoje, gostaria de chamar a atenção para àquela que não pudemos ver, pois foi literalmente colocada abaixo para dar lugar à de hoje: vou contar sobre a chamada Basilica Constantiniana do século IV.

O Cristianismo apareceu em Roma sob Calígula (37-41) e começou a ser difundido sob o império de Cláudio (41-54).
A partir deste momento, os cristãos foram sempre perseguidos com uma certa regularidade; as perseguições massiças foram dez e sob os seguintes imperadores: Nero (54-68), Domiciano (81-96), Traiano (98-117), Adriano (117-138), Marco Aurélio (161-180), Settimio Severo (193-211), Massimino il Trace (235-238), Décio (249-251), Valeriano (254-260), Diocleciano e Massimiano (284-305).

Os cristãos, em extremo perigo de vida pelas ruas de Roma, se reuniam salões de casas de patrícios que tinham colocado à disposição para os cristãos; os chamados Tituli, para celebrar os seus rituais, honrar o seu Deus e render homenagem aos seus antepassados. O fato dos cristãos ainda não terem estabelecido naquele período um calendário comum para todos os cristãos (coisa que acontecerá somente sob o imperador Constantino) e de brigarem entre si por questões dogmáticas (que também só serão organizadas sob e com o patrocínio do imperador Constantino no Conselho de Nicea), os transformaram na causa de todos os problemas do Império.

O Cristianismo introduziu à sociedade antiga novidades sobre a visão de Homem, como a superioridade do espírito sobre a matéria; o Cristianismo defendia a piedade em relação aos infelizes e a igualdade de todos os homens perante a Deus. A liberdade do indivíduo e o perdão das ofensas também eram completamente estranhos à mentalidade dos pagãos; além disto, reconhecendo em Cristo-rei a figura de líder absoluto, os cristãos tendiam a negar a autoridade e o culto divino do imperador, fomentando revoltas, sonegações de impostos e recusavam-se a empenhar-se militarmente pelo Império. Bom, dá pra entender que esta colisão de ideologias só poderia ser violenta, né?!

"Incendio de Borgo", afresco de Raffaello nos aposentos papais (Museus Vaticanos)
"Incendio di borgo", afresco de Raffaello, 1514 - Com a Antiga Basílica representada no fundo - Foto Wikipedia de domínio público

Diz-se que o apostolo Pedro foi morto crucificado de ponta-cabeça no Circo do Calígola (ou Nero), que ficava na colina Vaticana. Alguns cristãos presentes que sabiam quem ele era ( “E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja” (Mt 16,18) ) e o pegaram e fizeram uma sepultura no grande cemitério de homens-livres que se extendia do lado do circo até às margens do Tibre, perto do que é hoje Castel Sant'Angelo. Isto não fui eu que disse, mas um padre do II século, e quem escreveu foi Eusébio de Cesarea: ".... io posso mostrarti i trofei degli apostoli. Se vorrai recarti nel Vaticano o sulla via Ostiense, troverai i trofei di coloro che fondarono questa Chiesa." ("...eu posso te mostrar as sepulturas dos apóstolos. Se for ao Vaticano ou à Via Ostiense, encontrarás as sepulturas dos fundadores desta Igreja." São Paulo era cidadão romano e por isso tinha direito a ter uma morte rápida: foi decapitado nas proximidades da Via Ostiense - hoje existe a Basílica de São Paulo às Quatro Fontes que lembra deste fato).

Estamos no século IV d.C. sob o Imperador Constantino. Neste momento Roma conta com 27 bibliotecas públicas, 12 termas (com capacidade total para 60.000 pessoas), 856 banheiros privados a pagamento, 5 naumachias (circo que encena uma batalha naval), 11 grande Fórums, 10 basílicas importantes, 3 teatros grandes, 36 arcos triunfais, 1352 fontes e 8 pontes, entre outras maravilhas.

Desenho da antiga basílica de Constantino
Desenho da Basilica Constantiniana por H.W.Brewer Wikimedia Commons

O Imperador Constantino acorda naquela manhã do ano 313, coloca a sua túnica imperial, toma seu café-da-manhã, e por uma razão ou por outra (o crescente número de adeptos desta nova religião no interior do seu exército? as desordens causadas pelos cristãos em várias partes do Império? ), decide dar a liberdade de culto aos cristãos, assinando o famoso “Edito de Milão”. Depois deste clamoroso fato histórico, não demorou muito para que se construissem as primeiras grandes igrejas, que hoje são chamadas de paleocristãs. Constantino enfrentou dificuldades jurídicas e religiosas, para mandar aterrar o antigo cemitério e construiu uma basilíca que honrava a memória do apóstolo sobre o lugar que ele tinha sido enterrado. Esta basílica foi consagrada pelo Papa Silvestro I no ano de 333 e, ao contrário do que muitos podem pensar, era simplesmente ma-jes-to-sa! A entrada era composta por um imponente quadripórtico e as dimensões do interior eram de aproximadamente 110m x 65m, 30m de altura, com 5 naves.

Cortile della Pigna

Visite o antigo cemitério de homens livres ("Necropoli Vaticana"), embaixo da Basílica de S. Pedro, e veja com os seus próprios olhos o que estou contando. Reserve diretamente com o Vaticano: scavi@fsp.va.

Roma é fantástica por isso: ainda hoje você pode ter uma idéia de como eram estas basílicas antigas! Para tanto, visite, se tiver curiosidade: Santa Maria in Trastevere (que além de tudo é um ótimo bairro para passear e comer. Para chegar lá, pegue o tram linha 8, parada Piazza San Cosimato), Chiesa di San Crisogono (Viale Trastevere, do lado da Piazza San Cosimato) e São Paulo Fora Dos Muros (metro B, linha azul). Se gostar mesmo de arquitetura, história e basílicas, visite também: San Giovanni in Laterano (S. João em Latrão, em português) e Santa Maria Maggiore (Via Cavour, perto do Termini).

Basílica de Santa Maria Em Trastevere
Santa Maria in Trastevere, um coro canta na praça espontaneamente, 2011


Da antiga basílica, ainda podemos apreciar algumas coisas que mantiveram ou re-inseriram na nova: o portão principal de Filarete (apelido do artista Antonio Averlino, feito em 1445) , a escultura de S. Pedro (séc XIII) por Arnolfo de Cambio, um mosaico de Giotto ("mosaico della Navicella"), no átrio. Se passarem por acaso dentro dos Museus Vaticanos pelas "Stanze di Raffaello", verão um afresco que representa "O incêndio de Borgo", com a fachada da antiga basílica.

Pátio da PInha, Museus Vaticanos, guia de Roma em português
Pinha da Antiga Basílica, hoje no Cortile della Pigna, Vaticano

Nenhum comentário:

Postar um comentário