sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Guia de Roma em Dordogne, França!

Post dedicado a Marcio, do http://toindoparaaitalia.blogspot.com/ e http://toindoparaafranca.blogspot.com/

Desde sempre quis ver as famosas pinturas de Lascaux, na região de Dordogne, na França. Para mim, este momento onde os primeiros seres humanos esboçavam imagens de extrema elegância na parede das cavernas me causou muita curiosidade. Achava que o dia que conseguisse entrar numa caverna, iria sentar no chão e chorar de emoção!

MIALET, foto de Filou 30

A caverna mais famosa da França, e talvez até do mundo, é Lascaux, que foi descoberta em 1940. A partir dos anos 50, com o crescente numero de visitantes, as pinturas começaram a ser danificadas pela quantidade de gas carbônico emanada pelos visitantes no ambiente e em 1963 a caverna foi fechada. Em 1972 iniciaram o projeto de construção de uma réplica da caverna a 200m da original. Em 1982 concluiram a construção do que ficou conhecido como Lascaux II, que é o que vemos até hoje neste sítio arqueológico. Acredita-se que as pinturas tenham sido feitas entre 17.000 e 15.500 a.C.. Na região de Dordogne existem muitas cavernas visitáveis, mas a que tem a melhor e maior qualidade de pinturas neste momento, ainda aberta ao público, é Font du Gaume na cidadezinha de Les Eyzies.

Saint-Jean-du-Gard , foto de Filou 30

Por acaso, um “acaso” doido da minha vida, fui parar lá para trabalhar com turistas ingleses no verão de 2010 e fui à Font du Gaume. O que me marcou na visita foi quando a arqueóloga disse que as pessoas que fizeram estas pinturas NÃO MORAVAM NAS CAVERNAS: iam la para pintar, mas não moravam la dentro! Ela também disse que eles levavam uma torchinhas de zimbro (arbusto) para iluminar as paredes enquato pintavam! Impressionante era também a altura de algumas desenhos...cê ficava pensando "como é que eles subiram lá tão alto, e porque???"Seguramente teriam precisado de um verdadeiro andaime para subir, oito, dez metros! Do que eu pude perceber, as visitas não são todas iguaizinhas... os arqueólogos variam um pouquinho o que mostram aos visitantes... eu tive o azar de pegar uma guia que falava um ingles beeeeem ruim...fazia um esforço tremendo para entender; mas a sorte de ter visto uma das cenas mais tenras pintadas na préhistoria: um bisão bebê que está bem baixinha na parede de uma das galerias de Font du Gaume.
Ver estas pinturas não é que não vale a pena... pode ser simplesmente o sonho da vida de alguém como eu!

Aqui o site para as reservas da caverna Font du Gomme: http://eyzies.monuments-nationaux.fr/ não esqueça de reservar com muita antecedência!!!

Na primavera de 2010 estava trabalhando para uma grande agência inglesa há 4 meses e tinha motivaçao de sobra para fazer loucuras, como por exemplo guiar 283km atraversando a França de Cévennes à Dordogne de carro. Lá as estradinhas são muito perigosas, cheias de turistas... e sobretudo... não falo francês. Obviamente eu aceitei!

Já chegar ali era complicado: precisava sair de Roma, onde moro, pegar um vôo para Nice, depois um trem para Montpellier e de lá um ônibus, que saia uma vez por dia de manhã bem cedinho, para ir à uma mini-cidadezinha chamada Le Vigan, no Parque Nacional de Cévennes. Em Le Vigan, o pai de uma colega me esperaria na estação para me dar um carro da empresa, pois era o mais perto disponível para fazer a substituição do meu colega o mais rápido possível.

Centro de Montpellier, foto de Andrea Zamboni

No avião conheci Maddalena, que é italiana e trabalha para ONGs, gosta muito de línguas, fala espanhol e francês. Logo nasce uma simpatia na fila do embarque e eu confessei timidamente que não falava francês, com meu livrinho na mão "Francese in 24 ore". Ela foi tentando me explicar algumas coisas básicas da língua, mas quando aprendo uma língua, gosto de sentar, estudar a gramatica, pois sem ela é difícil.... então ia ouvindo a Maddalena, olhando meu livrinho e pensando ao ônibus que não poderia perder. Pensando bem, já tinha feito viagens muito mais tranquilas do que aquela!

Fui para a estação de trem de Nice, passando por aquele povo todo na praia, curtindo aquela água azuuuul e tentando enumerar as razões que tinham me convencido a fazer aquela viagem de trabalho tão louca....
Chegando na estação, tive sorte e consegui comprar um ticket pro mesmo dia - não sei se é claro o conceito de "Costa Azul no Verão"... mas quer dizer "Inferno na Torre": estaçoes cheias, trens cheios, mu-vu-ca. Pego este trem, e pago € 56 por uma viagem de 4 horas e meia. A viagem durou bastante para que meus pensamentos ficassem sempre mais agitados, mas consegui chegar "viva" em Montpellier.

Montpellier é uma cidade turistica e universitária: bares, restaurantes cheios de gente, muita música, shows, exposicões... em Julho fica "cheia como um ovo", como dizem os italianos

Economize comprando seus tickets de trem na internet antecipadamente! http://www.raileurope.com.br

Pensei que teria encontrado facilmente um hotelzinho, uma pensãozinha, uma qualquer coisinha-onde-para-dormir, pois para mim todos os viajantes do mundo estão em Roma! Montpellier é turistica, mas é pequena...seria possível que não encontrasse um quarto?!?
Não. Mas não foi fácil! Mesmo por que tinha que ainda naquela noite fazer " o teste do tram" para ver quanto tempo precisaria no dia seguinte para pegar o ônibus para Le Vigan, que saía de uma estação de ônibus super pouco sinalizada. Caminhei de um hotel ao outro, perguntando se tinham quartos, até que uma boa alma ligou para uns colegas e achou um lugarzinho muito bom, legal e perto de uma parada de tram.

O hotel onde tinha um quarto livre, era um 2 estrelas chamado Hotel Les Fauvettes. Gostei muito do preço: € 36, pois esta é uma zona cara. O que me conquistou foi o fato de estar um poquiiiinho afastado do centro, ter um jardim interno num pátio – adoro pátios! - , e silêncio, pois eu precisava dormir!

Para evitar este tipo de correria, reserve seu quarto antecipadamente aqui no site de Turismo da cidade de Montpellier (e saiba também da programaçao cultural): http://www.ot-montpellier.fr/en/ (site em ingles, conteudo resumido); site em francês: programaçao cultural http://www.montpellier.fr/.

Lembre-se que o sul da França é conhecido por ser um lugar de veraneio, onde as pessoas vivem a vida com calma e tranquilidade: e neste caso quer dizer para alguém que queira ter um serviço decente pagando pouco, não espere profissionalidade! Pagar pouco e ter profissionalidade é uma caracteristica que encontrei só na Alemanha!

Faço check in, entro no quarto... estava pronta pra tomar banho e me jogar na cama, mas não poderia dormir sem planejar muito bem o horário da saída no dia seguinte!

Deixei a mala no quarto e fui ver quantos minutos precisava pra ir até o ponto do tram; e de lá para a tal estação de ônibus.
Achei bem difícil a sinalizacão da estação de ônibus. Não tinha um cristão (outra expressão italiana!) para dar informação e o tal lugar parecia abandonado. Por Zeus, eu estou na Europa, estava certa de poder comprar a passagem antes e deixar tudo pronto para o dia seguinte. Mas não!

Apesar do ventilador, senti calor de noite. Aqui o comentário sobre este hotelzinho com fotos no Trip Advisor: um pouquinho generoso demais segundo a minha opinião, mas não posso reclamar! Hotel_Les_Fauvettes, Montpellier.

Saí no dia seguinte de manhã cedinho como uma fúria – puts, não podia perder aquele ônibus!

O ruim destas situações é que não consigo comer; aí, depois que tudo se resolve, chega a fome. Consegui chegar na hora certa para esperar o ônibus, tomei um cappuccino e comi um cornetto, che na França se chama croissant, e se partia! O pior momento estava chegando... o escritório de Oxford tinha me dito que teria que guiar por umas quatro horas, atravessando a França diagonalmente. Eu estava muito ansiosa para saber como teriam sido aquelas horas no volante, pois a única coisa que sabia... era que meu amigo tinha sofrido um acidente e eu estava indo substitui-lo!

Duas horas de viagem pelas estradinhas super perdidas até que cheguei no ponto de encontro e o pai da minha colega era um senhor simpaticíssimo, visível e puntual para o nosso encontro. Fui levada à casa deles, onde a sua esposa me ofereceu um café e um lanchinho para a viagem - que pessoas tão gentis! Miranda (a minha amiga) tinha me dito que deixava um mapa para mim (ela já tinha voltado pra Inglaterra) e foi assim que dei uma olhada rápida no percurso, agradeci os mimos das pessoas que tinha conhecido, entrei no carro e iniciei a minha procura pela proxima saída na minha Citroen Berlingo azul, último modelo: Nantes.

O dia estava lindo e eu via paisagens maravilhosas de rochas calcáreas e céu azul, lagos e bosques, subindo e descendo as montanhas, pensando a homens préhistoricos se movendo naquela paisagem; lá ia eu dirigindo com cuidado nas estradinhas em zig-zag, feliz da vida! Vale super a pena baixar este pdf em português da UNESP (Campus de Rio Claro) sobre a região, é muito interessante e tem muitas fotos: O PARQUE NACIONAL DE CÉVENNES E A CONSERVAÇÃO AMBIENTAL, de João Luiz de Moraes Hoeffel e Sônia Regina da Cal Seixas Barbosa. Parabéns e obrigada aos autores!

Não gostei mesmo foi de pegar a autoestrada - achei que os franceses guiam seus carros como loucos – e aqui repetiria Asterix, mas assim: Son fu le français! Foram os 35 km mais longos da minha vida! Quando a gasolina estava acabando, parei para abastecer, comi a maçã que a mãe da Miranda tinha me dado, o chocolatinho, tomei um gole de água e continuei para a minha próxima saída: Cahors. Tem também boas fotos aqui, no blog de um canadês que trabalha como guia naquela região: http://hikinginprovence.blogspot.com/2011/10/cevennes.html

Prossegui viagem... e quanto fiquei contente em ir acertando direitinho as saídas, você não pode imaginar! Se olharem no Google Maps de pertinho, vai ver que poderia ter errado muito! Entendi que não saber falar a língua implicava em não ter nenhuma memoria para aqueles sons e letras que naquele momento entravam pelos olhos mas ficavam boiando na minha cabeça de forma aleatória, e era dificilíssimo acertar as saídas. Era só apoiar o mapa no assento do passageiro e PIMBA! esquecia tudo!

Bom, entrei na estradinha N88 e ficou bico: se eu tinha sobrevivido à autoestrada francesa, eu podia começar a relaxar, mesmo que o ritmo da viagem estivesse indo muito mais devagar do que o previsto. Já estava dirigindo há quatro horas e teoricamente deveria estar pertinho, mas não estava... De qualquer modo, meu prazo para a chegada em Sarlat-la-Canéda era até aquela noite, pois no dia seguinte deveria receber viajantes e "elucidar o percurso", o que exigia uma reunião de uma eficiencia monstruosa com o meu colega Nick, que tinha se acidentado.

Sarlat, foto de Patrick Nouhailler

Continuei pela linda e exótica paisagem, passando por um outro sitio arqueológico no caminho, uma cidadezinha linda, linda, chamada Gourdon. Se não fosse pela urgência do meu objetivo, teria tranquilamente passado uma noite e uma dia, pelo menos, naquele lugar!

Segui viagem com o ar condicionado ligado, pois naquela hora, naquele lugar, o calor ficava muito intenso e eu tentava me poupar para o resto da viagem e do dia, pois ainda não disse que nem sabia onde iria dormir naquela noite!
Confesso ter errado pelo menos ainda duas saídas (mas era fácil fazer um retorno!) até chegar em Sarlat, parar o carro num lugar bem central, e me sentindo uma heroina, liguei pro meu colega dizendo para ele vir me encontrar: isto era como tínhamos combinado. Pasmem, a viagem durou 6 horas e meia! Duas a mais do que dizia Google maps e o nosso "Bosley", o escritório de Oxford.

Estava cansada, mas ao mesmo tempo híper-adrenaliínica. Marcamos de nos encontrar em um restaurante ao aberto em Carsac, onde tem uma linda igrejinha românica do séc XI. Um café custa tranquilamente € 4 , você pode imaginar o resto... Sentamos e depois de discutirmos sobre alguns problemas da empresa e como poderiam ser resolvidos, Nick me contou quais eram as últimas informações que deveria dar aos clientes que estavam chegando no dia seguinte.

Carsac, foto de marrk.nl

Esta empresa organiza viagens a pé. Os viajantes recebem um caderninho com mapas e descrições, e viajam praticamente sozinhos de uma aldeia à outra. Em poucas palavras, a nossa função é de ficar ligado nas mudanças dos caminhos, como por exemplo "o bosque de nozes não existe mais, pois foi cortado", "entre Meyral e Les Eyzies tem uma parte do caminho com pernilongos assassinos: use repelente!"; aconselhar o que experimentar das especialidades locais, estar atentos às diversas alergias alimentares, ajudar em caso de acidentes, reservar táxis na última etapa da viagem caso necessário, reservar os tickets do sítio arqueológico de Les Ezyes e levar as malas de um hotel para o outro. Mais ou menos...

Naquele dia decidi ir para um Camping em Vezac, chamdo Les Magnanas às margens do Dordogne, comprei uma tenda nos supermercados Leclerc por 12 euros, um tapetinho térmico por 5 e la fui eu ao Camping Les Magnanas (http://www.sarlat-camping.com/) € 6.40 (tenda + espaço tenda 100m2 e carro), de onde saía para trabalhar todos os dias de manhã e nadava todas às tardes no rio Dordogne!

Amei e recomendo a região do Dordogne!!!

2 comentários:

  1. Estou programando uns 4 dias na Dordogne em meados de maio. Pelo seu relato, esteve por lá na primavera. Como estava o tempo? Será que a época é uma boa?

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  2. E' sim, Sheila, um o'timo periodo. Abçs

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