domingo, 30 de outubro de 2011

De Roma para a Liguria, com amor

Conheci, e conheci BEM a Liguria em 2009. E' a terra de vinhos elegantes mas discretos, do sciacchetrà (licor delicado à base de uvas passidas), de um mel puríssimo e do genial pesto; da primeira comunidade em toda a Europa que mostrou a importância em regularizar a produção de produtos biológicos.
No século XX foi em Gênova que o tecido com o qual faziam umas calças resistentes, muito usadas pelos garimpeiros da América do Norte, foi brevetado por um comerciante, um tal de Levi-Strauss que exportava o jeans.

Trabalhei para uma agência alemã que mandava grupos para Forte dei Marmi (na Toscana, fronteira com o Liguria),onde cada uma das guias partia para excursões diárias com os grupos.

Os três dias que passávamos juntos eram divididos assim:

Primeiro dia: Porto Venere e Porto Fino.
Amei muito Porto Venere, com a maravilhosa igrejinha de Sao Pedro em estilo românico no alto do rochedo, com o mar azul em pequeno porto com muitos barquinhos láááá embaixo; a igreja de São Lourenço e as legendas que envolvem as suas relíquias...

Segundo dia: íamos à San Gimignano, um brinco de cidadezinha medieval com as famosas "torres gêmeas", pracinhas lindas, uma vista do alto sobre as famosas colinas seneses, que parecem uma pintura de tão irreal, e um sorvete pluripremiato... depois fazíamos uma degustação de vinhos, mas não na cidade, no campo, para depois acabar o dia com chave de ouro em Siena, em um passeio com uma guia oficial da cidade. Depois do longo passeio e do longuíssimo dia sempre - ou quase sempre rsrsrs - me perdia para tornar ao ônibus nas ruazinhas pequenas e cheias de curvas, mesmo que cada ruazinha tem o sinal da "contrada" (bairro) à qual pertencia... os seneses, como os napolitanos, sao um povo à parte! E quanto são orgulhosos da cidade e mais ainda da contrada deles!

O último dia passávamos em CinqueTerre, patrimônio mundial UNESCO. Não conseguíamos ver tudo "para ver bem". Corniglia, que fica no alto da montanha e onde se chega de trem somente subindo uma longa escadaria não fazia parte do nosso trajeto.
Descíamos na estação de La Spezia para começar o passeio a pé em Rio Maggiore. Rápida parada com visita ao burgo e igreja lá em cima, para depois seguir pra Monterosso, onde se aproximava a hora do almoço, já que o dia começava puntualmente às 8 da manhã já sentados dentro do ônibus!

Em Monterosso descobrimos o restaurante "Al Caruggio" da Isabella logo no primeiro dia de exploração da cidade. Logo este lugar virou o nosso preferido pela qualidade da comida e pela simpatia dos donos, um casal que sabe trabalhar com professionalidade no feroz mundo do turismo, onde quem viaja em vez de pedir descontos, deveria fazer o que fazia sempre meu avô com a sua alma nobre e gentil: acima de tudo valorizar o serviço que te oferecem e pensar às gorjetas, já que quando a estação acaba, vive-se dos frutos do que se conseguiu recolher durante a estação: se foi uma boa estação, têm-se uma certa tranquilidade até o próximo ano; se foi uma estação "ruim", a tranquilidade e a possibilidade de poder trabalhar no ano sucessivo são bem menores...

Monterosso, como todas as outras cidadezinhas de Cinque Terre, tem uma média de apenas 5.000 habitantes de cuja maior parte vive do turismo e uma menor parte cultiva a terra. Tem um monastério lindíssimo no alto da colina com um quadro de Van Dyk, uma igrejinha românica com listas horizontais em mármore preto e branco e é conhecida por ser o lugar onde o poeta Eugenio Montale passava férias durante a sua infância. Seguramente a sua alma de poeta foi despertada pela beleza deste lugar: águas transparentes, rochas escuras, brisa doce e um silêncio quase místico que te preenche o coração nas pausas das ondas do mar. O olhar vaga serenamente entre as colinas esculpidas pelos vinhedos cultivados pela mão do Homem há mil anos e a infinidão do mar azul safira.

Depois do almoço, tomávamos o trem para visitar Vernazza, um outra pérola de cidadezinha de atmosfera quase irreal de tão lindinha. Duas igrejas românicas, um portinho ideal para tomar sol ou simplesmente molhar os pés na água azul-transparente sentados num rochedo.

Com os últimos acontecimentos trágicos das enchentes exageradas do rio Vara, este ângulo de mundo tão especial cessou a sua doce existência para dar lugar aos horrores da inundação e da morte. Para as pessoas que moram neste lugar, que são ao mesmo tempo patrimônio humano e cultural deste planeta, é inútil colocar-nos a pergunta se esta tragédia poderia ter sido evitada, pois agora eles têm uma pá na mão para remover os três metros de lama que invadiram as suas casas (quando não foram 6 metros, no caso de casas levemente abaixo do nível da rua) e os seus direitos de pensar e sentir foram suspendidos temporaneamente. Clique aqui para ver um dos tantos videos no youtube.

A crescente impopularidade da nossa sociedade em fazer perguntas à si mesma, produz várias consequências inomináveis aos indivíduos que a compõe e nos obrigam a passar provas que na pré-história só os deuses eram capazes de nos propor.

A nossa sorte é que este povo em dificuldade é forte, tem uma capacidade e orgulho que se perde na noite dos tempos. Eu desejo de todo o meu coração que consigam superar esta situação o mais rápido possível e possam voltar a nos oferecer generosamente a sua cultura e história como sempre fizeram.

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