sábado, 30 de julho de 2016

O Bolo de Noiva ou a Máquina de Escrever


Como pode ser possível numa cidade como Roma um monumento tão grande agradar tão pouco aos romanos?!


As explicações são muitas, mas vamos primeiro ver do que estamos falando.
No que poderíamos chamar de centro geográfico do centro de Roma existe um cruzamento muito importante entre a Via del Corso e a Via Cavour, que muda de nome para Corso Vittorio Emanuele II, na monumental Piazza Venezia.

Este monumento mastodôntico e branco, o que faz com que nós o percebamos ainda maior do que já é, é o famoso Altar da Pátria ou Monumento a Vittorio Emanuele II (ou Víctor Emanuel II, acho impossível e pouco prático para quem está vindo, traduzir nomes próprios). A sua construção iniciou-se em 1885 e tem como finalidade comemorar a união da Itália como a conhecemos hoje.


Quem ganhou a licitação foi Giuseppe Sacconi, um arquiteto do norte da Itália, inspirado pelos antigos santuários, como o de Palestrina.
E do norte veio também o mármore botticino para a construção deste monumento. A sepultura do soldado desconhecido, que contém os restos mortais de um soldado italiano morto na I Guerra Mundial, foi finalizada em 1921. 

Depois de mil atrasos por causa de verba e da falta de consistência do solo do lado norte da colina do Capitólio, o Altar da Patria ou Vittoriano, assim como o vemos hoje, com o Museo del Risorgimento que ele abriga, só aconteceu em 1935!


Grandes nomes da virada dos séculos XIX ao XX deram a sua contribuição a este monumento, como por exemplo Manfredo Manfredi com a grade de ferro que o protege; a alegoria no alto do grande portão à esquerda, o “Pensamento”, de Giulio Monteverde; a “Ação”de Francesco Jerace. A fonte à esquerda representa o mar Adriático (de Emilio Quadrelli), sobre a qual se apoiam a “Força” de Augusto Rivalta e a “Concordia” de Ludovico Poliaghi. A fonte à direita, representa como esperado o mar Tirreno, de Pietro Canonica, com o “Sacrifício” de Leonardo Bistolfi e o “Direito” de Ettore Ximenes. Aos leões de Giuseppe Tonnini seguem as “Vitórias aladas”, respectivamente da esquerda à direita, de Edoardo Rubino e Edoardo De Albertis, e por aí vai a poética concepção de Itália do século XIX.


Interessante a sepultura do edil plebeu Bibulo, do início do I séc a.C., feita em tufo (pedra lávica) e mármores travertino, que nos conta que os antigos muros servianos passavam logo atrás desta sepultura, dado que enterrar mortos dentro dos muros da cidade não era permitido.


Os romanos tiram muito sarro deste monumento por várias razões: quem sabe o grande arquiteto não conseguiu dotar seu monumento das graciosas proporções que tinham os templos antigos? Ou o mármore é um mármore não romano”? O resto da história e as fofocas complementares contaremos aqui durante a nossa visita guiada em português, o que você acha?

No alto deste monumento existe um bar e uma vista de tirar o fôlego de qualquer um.


sábado, 9 de julho de 2016

Monte Soratte - bate-e-volta de Roma

Visitar o Monte Soratte é uma ótima ideia para quem vem à Roma procurando turismo religioso, trekking ou afrescos da Idade Média. É um lugar apaixonante e com ótima comida, a menos de uma hora de Roma.


No meio de uma planície encontra-se esta montanha de 693m de altura, um lugar que sempre foi considerado especial pelas culturas que viveram aqui perto, tanto que o primeiro templo no alto da montanha foi construído no II séc. a.C..

Durante a "Festa da Montanha", cidadãos do "Grupo Histórico" da cidade fazem comidas típicas e servem em roupas medievais.

Essa mítica montanha tem também a ver com os afrescos da Capela de São Silvestro pois segundo uma tradiçao ligada à conversão do imperador Constantino ao cristianismo, o imperador sofria de lepra e seus médicos não sabiam mais o que fazer e sugeriam loucuras, como tomar banho no sangue de 40 crianças, coisa que o imperador não fez. E aí apareceram Pedro e Paulo num sonho num sonho do imperador, que diziam a ele de ir buscar Papa Silvestro que estava exiliado no Monte Soratte para curá-lo.


Constantino manda seus soldados buscarem o Papa, que volta e apresenta imagens dos santos aparecidos no sonho do imperador. Em seguida, o Papa é batizado por Silvestre e sua lepra é curada - contra toda a aprovação da corte imperial!

Daí à conversão do imperador e ao famoso "Edito de Constantino", que liberava o culto aos cristãos foi tudo muito rápido.




No alto do Monte Soratte, com uma vista de tirar o fôlego a 360°C, encontra-se o que hoje é chamado o êremo onde o santo viveu durante o exílio e onde foi construida uma igreja dedicada a São Silvestre, que contém afrescos realizados entre os séculos XIII e XVIII.

Interessante o ciclo com estórias de Santa Bárbara, imagens de São Francisco e algumas imagens da Virgem com o menino Jesus.

Não é novidade que a gastronomia faz parte da cultura aqui na Itália. Comemos muito bem: sopa de legumes (a melhor que comi na minha vida) e gnocchi al ragù 


Na cripta, maravilhoso capitéis românicos e imagens de São Silvestre e do Arcânjo Miguel.

Ciclo de Santa Barbara, Igreja de São Silvestre


Passei dois dias maravilhosos na casa de uma amiga que é de Sant'Oreste, a cidadezinha mais próxima, construída no Monte Soratte. Mas como fica muito perto de Roma, é possível realizar um bate-e-volta, com parada no caminho em tratoria típica.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Via Appia Antiga, alguns detalhes históricos

A importância de ver e caminhar sobre uma rua tão antiga e tão importante para a Roma Republicana e sucessivamente para o Império Romano talvez não tenha sido devidademente sublinhada no post anterior, onde falo muito da beleza comovente desta antiga estrada de Roma, que hoje faz parte de um parque regional de 3400 hectares, instituido no ano de 1998.

 Eu e Giulia ao longe, sorpreendidas por um clic da Christina, super-companheira de passeios na Appia Antiga!

Imaginem que no passado a maior parte dos transportes era feita no "lago" Mediterrâneo (o Mar Mediterrâneo era navegado como se estivessem em um lago, era a dimensão básica para o comércio na antiguidade) ou através dos rios.


Com Giulia, grande companheira de passeios na Appia Antiga!

A construção da Via Appia, apelidade de Regina Viarum - Rainha das Estradas na antiguidade, pela beleza dos monumentos que foram construidas às suas margens - iniciou-se no ano de 312 a.C. por ordem do censor Appio Claudio. Muito provavelmente ela foi traçada num percurso ainda mais antigo que ligava Roma à Colli Albani, que hoje chamamos "região dos Lagos" ou "Castelli", ao sudoeste de Roma.

 Com as amigas, dos meus passeios preferidos!

Esta estrada era larga o suficiente para que dois carros passassem nos dois sentidos sem problemas! Interessante e extremamente precisa e eficaz a sua construção, que previa o escorrimento da água para as bordas do basalto, que era perfeitamente cortado e montado e repousava sobre uma sólida estrutura de 1,5m de altura, constituida por pedras grandes, areia e cascalho e uma espécie de cimento.

Sou a rainha dos picnics na Appia. Adoro passar até meu aniversário aqui!

Sucessivamente a estrada chegou em Capua, Benevento, Venosa, Taranto e finalmente Brindisi, onde tinha o principal porto que ligava Roma com ao Oriente.

A cada 8-9 milhas (1 milho romano = 1 482,5m) existia uma estação para trocar os cavalos para seguir viagem. O percurso que era percorrido em um dia era de 20-30 milhas.

Hipotética construção da antiga estrada

Dado que nas leis antigas enterrar os mortos dentro do perímetro sagrado ("pomério") era proibido, a construção de sepulturas nas estradas que levavam às províncias ("vie consolari") era muito comum.

Num grande parque com essa paisagem mediterrânea maravilhosamente inigualável!

Entre  os II e IV séculos o início da Via Appia foi o lugar fundamental para a vida dos primeiros cristãos de Roma, pois lá existia um terreno onde estes eram enterrados numa zona destinada exclusivamente à pessoas que compartilhavam a mesma fé: isto é, as catacumbas ou cemitérios, palavra cuja etimologia nos faz retornar ao grego κοιμητήριον (koimētḕrion), "lugar de repouso". Para os cristãos a morte já era um sono após o qual acordariam para a vida eterna.

Visitar a Via Appia hoje é uma enorme emoção para quem entendeu o seu significado; tão forte, ou até mais intenso do que o próprio Coliseu!

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A Mansão de Livia

A Mansão de Livia – ad gallinas albas

« (...) Livia Drusilla, que depois do casamento chamou-se Augusta, quando tinha a data fixada do casamento com César, uma águia deixou cair no seu colo, intacta,uma galinha de um branco extraordinário, (...)
este fato aconteceu na mansão dos Césares ao longo do rio Tibre, no nono milho da via Flamínia, que por isso ficou conhecida como ad Gallinas.... »
Plinio, Historia Naturalis , XV, 136-137

Roma nível III, para quem já viu o básico de Roma, algumas partes dos arredores, como ÓstiaAntiga, Villa  Adriana, Região dos Lagos e alguns museus além do Vaticano: você está pronto para ver mais uma curiosidade do mundo antigo: a discreta “Mansão de Lívia”. Lívia foi a esposa do primeiro imperador, Augusto, e quando encontraram esta mansão do campo no século XIX, os arqeueólogos decidiram de chamá-la “de Livia” pois esta mansão tinha pertencido à sua família (lado paterno). Trata-se, então, de uma mansão do período republicano e esta é uma das razões que nos traz à esta zona, a somente a 20km de Roma.

Esta mansão foi mencionada nao somente por Plinio, mas também por Suetônio (Galba 1) e Dião Cássio.

Mansão de Livia, visao geral
 
 
 Cultivaçao de louros

As indicações nos textos antigos era muito clara: a mansão tinha sido construida numa colina perto da marcação do IX milho da Via Flamínia, uma das antigas estradas romanas que levavam ao norte. Hoje em dia o glamour antigo infelizmente não pode ser percebido, a menos que a sua guia o traga de volta, descrevendo o que deve ter sido isso na virada do milênio, isto é quando Augusto e Lívia passavam seu tempo relaxando aqui!

 
 Exemplo de afresco do atrio, com o preto especial

Afrescos dos aposentos dos hospedes

Curiosa a lenda que deu o sobrenome à mansão “ad gallinas albas”, que conta a estória de uma galinha branca que teria caído com um ramo de louro no bico das presas de uma águia, bem no colo da imperatriz. Imediatamente este fato foi considerado como uma mensagem dos deuses e foi plantado um “loureto”; a galinha foi criada na propriedade, dando início à uma criação de galinhas brancas. Todos os triunfos que Augusto celebrou tiveram uma coroa de louros que vinham desta propriedade; e no periodo de Nero, conta-se que a cultivaçao secou!

A "natatio"

Nesta mansão caracterizada pela austeridade (um dos principais valores da política de Augusto), vemos a parte privada do casal imperial, a parte onde recebiam hóspedes e até onde os aposentos de eventuais hóspedes. Veremos o impluvium, a plantação de hervas e temperos (re-plantada como na antiguidade!), termas, hipocaustos, restos de afrescos e tapetes com mosaicos (geométricos e figurativos).

Mosaicos com temas geometricos

Mas a maior emoção é, sem dúvida, ver o famoso semi-hipogeu de onde os restauradores destacaram os afrescos maravilhosos que estão no último andar do Palácio Mássimo. Para quem conhece este museu e estes afrescos, vir a esta Mansao de Lívia nos arredores de Roma é poder atravessar mais uma porta do passado e viver a emoção da beleza e aromas da antiguidade, a raiz da nossa sociedade.

 
O famoso semi-ipogeo com tecidos que lembram os maravilhosos afrescos

domingo, 12 de junho de 2016

A Revolução Cristã

Se você já viu Vaticano e Coliseu e deseja voltar à Roma, está pronto para entrar no maravilhoso mundo da aurora do cristianismo, este momento único da nossa história em que, praticamente, o mundo foi dormir pagão e acordou cristão. 

Bom Pastor, imagem em Catacumba
O "Bom Pastor", Catacumbas de Domitilla

Quem realmente gosta de Roma e, realmente, se interessa por História não pode ficar indiferente a este acontecimento revolucionário do mundo ocidental que foi o início do Cristianismo e as suas consequências na Arte, Arquitetura, nos usos e costumes da sociedade. Esta questão nos leva a outros mundo e nos faz atravessar milênios. Ninguém é o mesmo depois de uma excursão às catacumbas ou igrejas do IV século, as chamadas igrejas “paleocristãs”.

O orador, cena em catacumba
O "orador", Catacumbas de Domitilla

Cresci numa casa marcada pelas Ciências Humanas e meu foco para ver e interpretar o mundo é enraizado neste aspecto. Digo isso por que do meu ponto de vista, a iconografia cristã com a sua linguagem extremamente refinada é um dos temas mais interessantes para o viajante que já fez o básico em Roma. Aqui você pode acompanhar desde o início o resultado do “choque” e “síntese” entre as culturas pagã (que concebia seus deuses em formas extremamente realistas e antropomórficas) e judaica (que condenava a representação de Deus).

Cenas diferentes, catacumbas
 "Orador", "Banquete" e "Sacrifício de Isaaque", Catacumbas de São Calixto

Banquete, afresco em catacumbas
"Banquete", Catacumbas de São Calixto

Num primeiro momento assistiremos à uma dissolução da arte clássica, acompanhada de uma re-semantização de temas pagãos (famoso o Orfeu) e do surgimento de inscrições simbólicas como o peixe-acrônimo (ΙΧΘΥΣ isto é, Ichtús no alfabeto em latim Jesus Cristo Filho de Deus), e em seguida a representação de cenas bíblicas (Jonas) e evangélicas (Lázaro), conotações claras à salvação e à ressurreição.

Jonas, afresco em catacumbas
 "Jonas", Catacumbas de São Calixto

Não sei se dá para perceber que através deste momento do cristianismo conseguimos seguir passo por passo um momento em que a mente humana atribui significados simbólicos a um evento histórico, com consequente desenvolvimento de uma iconografia e de valores que vão ser a base da nossa cultura. Não é sensacional?

Orador, afresco em catacumba
"Orador", Catacumbas de São Calixto
Bibliografia:
F. Bisconti, "Temi di iconografia paleocristiana" , Roma, PIAC; 2000
G.C. Argan, "Storia dell'Arte italiana", Roma, Sansoni, 1988
Aulas da Profssa. Elena Zocca, "Storia del Cristianesimo", Fac. Lettere e Filosofia, La Sapienza.

Para visitas em português, por favor preencha os teus dados na página http://www.guiabrasileiraemroma.com.br/#!contato/c1lmm de modo que possamos realizar um orçamento.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Afrescos Medievais da Capela de São Silvestre

A capela de São Silvestre do complexo dos Santos Quatro Coronati oferece um ciclo de pinturas medievais do mesmo período (em torno ao ano de 1246), mas não dos mesmos maestros da Aula Gotica.


Aqui as representações são mais usuais, pois se trata de histórias da vida do Imperador Constantino e de Papa Silvestre.

A capela de dimensões modestas é uma construção composta por uma única nave e sem ábside, com “scarsella”. O teto apresenta uma cor clara, provavelmente para ajdar a iluminar o ambiente na época em que foi construída, dado que em tempos difíceis, aberturas e janelas grandes não eram uma boa ideia!


Incrível e um unicum as inserções policromáticas no teto, em forma de cruz.

Sobre a porta de entrada temos um “Juizo Final” com Cristo no centro entre a Virgem e o João Batista. No segundo plano, vemos os objetos do martírio: pregos, lanças e a coroa de espinhos.


A iconografia da parede de entrada é ligada ao papa “em exílio no Monte Sorate” conta a história de Constantino quando esteve com lepra e a visão dos santos Pedro e Paulo, que o aconselham buscar o papa Silvestre e trazê-lo de volta à Roma. As cenas seguintes se extendem à parede da esquerda e se referem ao milagre da cura do mal de Constantino e a gratidão e batismo do imperador. A parede direita da capela conta histórias de Santa Helena, mãe do imperador Constantino e reponsável pelo achamento da Santa Cruz em Jerusalém.


Estamos sempre no incandescente tema da luta entre os poderes seculare e eclesiástico no auge desta problemática.


Apesar da técnica ainda não ter um desenvolvimento completo, pois as figuras não transmitem um senso de espaço tridimensional e as representações da Natureza ainda estão longe do realismo do Renascimento, simplesmente poder ver afrescos em ótimo estado de conservação é sempre uma experiência pra lá de enriquecedoura.

Oratório de S. Silvestre
Endereço: Via dei Santi Quattro, 20
Horários: 10.00 - 11.45 / 16.00 - 17.45 (fechado domingos de manhã).